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HISTÓRIA

 

 

o caso do ciclo-do-ouro ocorreu na segunda metade do século XVIII, quando os habitantes das Gerais assistiram, perplexos, a decadência de prósperas cidades, as casas virando ruínas e a procura das pessoas por outras plagas. Fim da riqueza, o que restou foram buracos nos morros e nas encostas dos córregos, o futuro incerto. Entretanto, mais uma vez, a solução estava na própria terra. Nessa mesma época, em torno de 1770, as plantações de café, que não vingaram no Pará, chegavam à Bahia e logo depois ao Rio de Janeiro. Iniciou-se então mais um ciclo econômico no país, o ciclo-do-café, que foi a base da formação do Brasil contemporâneo. 

Depois dos engenhos e do ouro das Gerais, veio o café dominar a economia, cujo ciclo começou a ser formado nos finais de setecentos e foi até meados do século seguinte, quando acabou o tráfego negreiro. Foi com o café que se lançaram os alicerces das grandes propriedades rurais, alcançando o auge após a Independência. 

O ciclo econômico do café foi relativamente curto - durou menos de um século - mas, além de trazer riquezas para o Brasil e para uma casta de fazendeiros, deixou para a posteridade as magníficas sedes das fazendas, casarões e solares, verdadeiros palacetes, testemunho de uma época de opulência e esplendor na região cafeeira. 

Desenvolvendo-se a partir de Rio de Janeiro (cresceu em Resende), a plantação de café ganhou força e deslocou-se para as terras do Norte Paulista, atingindo os municípios de Bananal, Areias, São José dos Campos e Jacareí. Em Seguida; alcançou Vassouras e Valença, seguiu para Juiz de Fora e dominou toda a região da Mata Mineira. Com a vinda de D. João e a família Real ao Brasil, em 1808, aumentou o incentivo à plantação do café, surgindo imensas fortunas e a conseqüente construção de verdadeiros palácios financiados pelo “ouro-verde” que enriqueceu o país.

 

  

 

 

 

 

      

     

 

A analise arquitetônica das casas de fazendas feita por Joaquim Cardoso (Revista do IPHAN) e Alcides da Rocha Miranda e Jorge Czajkouski (Fazendas), apresenta quatro categorias: 1) Casarão de um pavimento, às vezes sobre porão alto, tem como característica uma escadaria de dois lances na fachada; 2) Esse tipo possui apenas um exemplar, a Fazenda Pau d’Alho, pioneira no cultivo do café, mostrando um volume compacto coberto por telhado de quatro águas e alpendre de ponta a ponta; 3) Esse é o “casarão”, sobrado de muitas portas e janelas; 4) Casas de um pavimento com sobrado no centro da fachada ocupando área menor que a do andar térreo.

 

Apresentando uma variedade de estilos arquitetônicos, as fazendas em princípio obedeceram as linhas de construção urbana, estilo neoclássico, fugindo do colonial. As inovações neoclássicas que chegaram com os arquitetos do Príncipe Regente, foram adaptadas na construções rurais, principalmente por estarem localizadas no interior de difícil acesso. Como a arquitetura neoclássica é intelectualizada - requer o uso correto dos elementos e detalhes arquitetônicos num sistema preciso de relações e proporções, buscando uma harmonia e sobriedade - exigia mão de obra e materiais não disponíveis nas fazendas. Então o estilo sofreu uma simplificação e adaptações.
No início as construções eram do tipo usadas nos engenhos, seguindo-se os casarões com muitas janelas e portas, como um sobrado que ocupava uma área menor que a construção do térreo e o casarão de um só pavimento sobre porão alto. Nestas construções destacava-se o solar, normalmente com alpendre, escadarias e muitas janelas. 

 

No livro “Fazendas” da Editora Nova Fronteira, escreveu Paulo Mercadante: Eram palacetes cercados por jardins, prados à entrada, com pequenos lagos, com renques de palmeiras soberbas que conduziam os visitantes à porta do solar que destacava-se, enorme, atarracado, com alpendre no centro da fachada, ladeado de janelas e com escadarias de acesso… No solar, contíguo ao terraço, havia as salas de espera, dando, em geral, para o salão de visitas, quase sempre decorado, pois cuidados especiais davam-se aos interiores…” 

Os “barões do café” capricharam nos cuidados com o mobiliário, luxo dos interiores, com colunas e pilastras, pinturas e painéis decorativos, tudo sugerindo uma ambientação neoclássica, seguido depois pelo ecletismo da arquitetura. Os salões eram mobiliados com o mesmo luxo das melhores residências da corte. Traziam da Europa espelhos e cristais venezianos, baixelas de prata e ouro, finas tapeçarias orientais e móveis de jacarandá estilo inglês, porcelanas chinesas, pratas inglesas e portuguesas, pinturas, obras de arte as mais variadas.

 

Histórias e Lendas 

 

A história do café é cercada de mistérios, romances e lendas. Ela começa no ano de 850, na Etiópia, quando um pastor de cabras chamado Kaldi, ao observar que seu rebanho ficou inquieto depois de comer uns frutos pequenos, informou o ocorrido aos monges de um mosteiro próximo ao local onde se encontrava. Os monges provaram eles mesmos os frutos e também sentiram certa agitação. Passaram então a utilizar a planta nas noites de vigílias e orações, divulgando o seu uso para outros mosteiros. 

No século XVI o café já era bastante conhecido no Oriente. A bebida, como conhecemos, surgiu na Pérsia (hoje Irã), quando os grãos foram torrados pela primeira vez. A Itália foi o primeiro país do Ocidente a conhecer o café, isso em 1665, quando chegaram ao país algumas mudas provenientes da Turquia. Por ser uma bebida de origem muçulmana, a Igreja proibiu o seu uso aos cristãos, até que o Papa Clemente VIII, após experimentar a infusão, liberou seu uso para os católicos. 

Após receber a bênção papal, o café se expandiu pelo mundo, atingindo a Ilha de Java no final do século XVII e chegando a América através da Cia. Das Índias Ocidentais, que levou a planta para as Guianas, São Domingos, Porto Rico, Cuba e Martinica. Enquanto isso, na Europa, surgia muitas casas especializadas que ficaram famosas, como o Café De Foy, o La Régence e o Lembrin, em Paris, onde Robespierre, Danton e seu grupo se reuniam antes da Revolução Francesa. Outros freqüentadores famosos dos cafés parisienses foram Voltaire, Rousseau e Diderot, entre outros. Mas, nenhum deles era tão amante da rubiácia quanto o compositor alemão Johann Sebastian Bach, que em 1732 compôs “A cantata do café” (Kaffekantate) em sua homenagem. 

A chegada do café ao Brasil aconteceu em 1727, trazido de Caiena (capital da Guiana Francesa) pelo Sargento-Mor do Maranhão e Grão Pará, Francisco de Mello Palheta. Diz a lenda que Palheta e a esposa do governador daquela colônia se apaixonaram e ela, quando ele se despedia para voltar ao Brasil, colocou em seu bolso algumas sementes de café para servir de lembrança. E também que ele plantou as sementes no Pará para recordar a amada ao ver as mudas. Entretanto, existe uma versão afirmando que Palheta, na verdade, participou de uma missão secreta oficial destinada a trazer mudas de café, cujo valor comercial já era conhecido. 

A plantação do café não combinou com o clima do Pará e em 1770, começa o plantio na Bahia, logo atingindo o Rio de Janeiro. Com a chegada de D. João aumentou o incentivo à plantação do café, logo alcançando São Paulo, Minas Gerais e Paraná. Nasceu então um novo ciclo econômico que foi a base da formação do Brasil contemporâneo. Além de trazer riquezas, influenciar na formação de nossa raça através da imigração de trabalhadores, criou uma nova casta, a dos barões do café que passaram a dominar a política do país. Enfim, o café faz parte da nossa cultura, com suas histórias, lendas, superstições e crendices populares que são muitas e não cabem aqui.

Fonte: “Fazendas”- Editora Nova Fronteira, Revista do IPHAN e “Fazenda cafeeiras”. Fotos de Pedro Osvaldo Cruz e desenhos de Edmundo Allen.